Quarta-feira, Agosto 24

Crônica sobre o quadrado

   Ele acabara de descobrir que tinha um filho. De supetão inicial, não gostou muito da ideia, mas com o passar dos dias, foi gostando do estado de pai, foi achando aquele guri  bonitinho, pequenininho, engraçadinho e dependente, resolveu conhecê-lo melhor. E nada melhor que uma viagem à praia, a casa de veraneio da família para isso.
      E foram os dois, sozinhos, encabulados e desconhecidos, porém com o mesmo sangue a correr nas veias. O menino queria ver o mar, o pai cansado da viagem titubeou, estava com mau humor, indisposto... Mas o menino com um sorriso conseguiu levantar seu ânimo. E foram os dois. O pai logo pediu uma bebida e o menino correu para a areia, lá se sentou por alguns minutos, olhando o céu, sentindo a brisa do mar, deixando que o seu corpo aproveitasse tudo. Depois se levantou e foi em direção da água. O pai, de longe veio transtornado a gritar e chamar pelo nome do filho. O menino parou e virou-se para o pai, que gritava:
    - Pare, pare aí mesmo, nem mais um passo!O seu lugar é aí mesmo, sente-se na areia, aí, vamos! E daqui você não vai passar nada de mar! Foi nesse mar que uma vez, no passado, eu me afoguei e quase morri, foi por um triz! Não saía deste quadrado aqui que vou fazer na areia, daqui você não passa e não reclame, pois se reclamar vai embora!
     Voltou para tomar sua bebida, sem muito contato com o filho desconhecido, nada de carinhos ou intimidades, ele estabelecia ali um limite para aquela relação, nada de entregar-se àquele garoto ameaçador. E o menino, estarrecido e triste silenciou por um tempo, mas, no fim da tarde, seu espírito livre cansou do quadradinho delimitado e quis ir embora, não só da praia, como da presença do pai. Quis voltar para junto dos seus e foi o que ele fez.
     No mês seguinte, a mãe do menino o levou à praia, e ele repetiu àquele mesmo ritual: sentiu a areia, o vento e foi correndo experimentar o mar. Abriu os braços e nadou, mergulhando sem medo, sem traumas alheios ou gritos desnecessários, não se afogou, nem tinha delimitações, aquele mar imenso era seu e ele, sentia prazer e  contentava-se, a vida pulsava.

                                                   


Ana Paula Duarte. 


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
Clarice Lispector

5 comentários:

Beto Lopes disse...

Viva a liberdade! \õ/

Dayane Carneiro disse...

Isso me fez refletir qnts pasi passam pela vida da gente e n nos damos conta. Cada pai é um recomeço, na esperança do melhor. Mas como sempre, uma mãe aparece e torna as coisas melhores. Mãe tempo!

Danilo Cerqueira disse...

Gostei muito do seu texto. Ótima leitura.

Weslley M. Almeida disse...

Ah, nossos quadrados existenciais... Ora ou outra entramos num quadrado que a vida impõe. Mas há que se ter mergulhos...! Nademos.

Bela crônica.

Táxi Pluvioso disse...

Teve sorte em não se afogar. No fundo é isso a vida: sorte. Porque tanto pode suceder uma coisa ou outra, e cada um vive, o que a situação lhe preparou :)))))) boa semana