quinta-feira, agosto 25

O Profeta

                 

 begemot  Alter Ego  
Sobre a imagem, clica aqui
                 

                Segundo o dito popular: de poeta, professor e louco todo mundo tem um pouco. E acrescento a isso o Profeta. Sim, cada um de nós também tem um pouco disto, querendo anunciar boas novas ou incidir algumas palavras morais de aconselhamento.
                Acontece que para isso, há de haver a renúncia, o desprendimento, a prática. E nesse quesito, não passamos de profetas hipócritas, que não desce ao deserto de nós mesmos a clamar, mas que grita em praças e aturde os transeuntes, causando incômodo não pelo fato de pronunciarem, mas pela forma com que abordam as pessoas.
           Chega uma hora que os profetas acabam ignorados em suas comiserações. Profetas cansam por demasia, sobretudo estes que a falta de exemplo ridiculariza.
          Diante de tal excesso, as nossas preferências têm sido cada vez mais nos aproximarmos do que é humano, ainda que arrogante, ainda que falho, vaidoso e em processo de maturação e caminhada. Mas o Profeta não, o Profeta é um semideus, ele e suas conjecturas, ele e seus estereótipos e julgamentos, ele e suas projeções e espelhos. Ele e sua autopiedade. Precisa muito se desfazer de tantas batas e becas para que suas palavras e anúncios possam fazer algum tipo de sentido para além de vociferações desconexas.
                 Para algumas pessoas, o Profeta é seu alter ego. Lamentamos informar: não somos profetas, eles já não existem. As vozes que clamam no deserto gritam de interiores pós-modernos vazios de valores, de auto-confiança, de ética e de respeito. Máscaras no lugar das batas e becas. Inveja, dedos acusadores, vitimismo, solidão. Desespero do oco de si.
                    E em tempos de tantos (falsos) Profetas, importante mesmo é revolucionar a si mesmo e desconstruir-se de dentro para fora. Sem barulhos, sem anúncios, comedida e silenciosamente.



Ana Paula Duarte

sexta-feira, julho 8

Em que momento da tua vida você esbarrou no machismo?

Senta que lá vem TEXTÃAAO!

Eu me sinto incrivelmente identificada com as mulheres que usam as redes sociais para relatar e/ou denunciar situações de violência.
Comigo não foi assim, mas uma coisa posso dizer, me sinto inclusive encorajada a contar a minha história. Afinal, cada mulher fala de um lugar nessa sociedade de privilégios e eu entendo bem meu local de fala, respeito muito as vivências alheias e as interseccionalidades, ou como diz o ditado "Cada qual no seu canto sofre seu tanto".
Pois bem, desde cedo aprendi que precisava me defender do machismo. Uma vez que, todo mundo aqui sabe, na família tradicional brasileira a violência contra a mulher é prática corriqueira que se sustenta na expressão "em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher". No fundo, no fundo, todos/as nós sabemos como funciona pois vivenciamos em curta ou longa escala na vida, tenha sido com um avô, pai, tio, irmão, namorado, marido, até mesmos nos assédios de rua...em cada confusão sem motivo, grito, xingamento, ciúmes possessivo, puxão de cabelo, arremesso de objetos, destruição de roupas e objetos pessoais...
E eu, por mais que me sentisse atingida indiretamente, foi uma forma direta e velada que a cada dia se acentuava em gritos, tentativas de silenciamento, violência física e psicológica, que me causava raiva, muita raiva, hoje canalizada em minha militância, mas uma raiva como a de muitas: legítima.
Lutei bravamente para tirar a minha família desse ciclo, luto contra seus ranços ainda hoje. E mesmo com raiva, acredito na educação, pois foi por meio dela a minha libertação. Libertação que só pode ser alcançada quando se rompe com ciclo e não há como fazê-lo sem expor o que as aparências escondem, sem que venha o caos, a exposição, a dor e a vergonha. Sem que do caos surja uma nova ordem.
E hoje, quando me lembro de cada grito de namorado, de cada segurada forte ou puxão no meu braço, ou como da última agressão que levei um murro na cara e ainda hoje ouço de pessoas que eu preciso perdoar este agressor porque é uma pessoa de bem que estava fora de si, eu penso em como o machismo nos condiciona tão descaradamente de vítimas a culpadas...E ainda assim, eu penso nos privilégios que tive na vida e que me colocam em meu lugar de fala: pele clara, mesmo sendo pobre, não oriunda de periferia, de ter tido acesso ao ensino superior...Tudo isso, recortes que precisam ser feitos para que eu entenda o meu lugar de fala e não compare as realidades como se fossem homogêneas. Não, eu não tive sorte, não se trata de sorte. A questão é que vivemos numa sociedade de privilégios! Mulheres negras de periferia e com pouco ou nenhum acesso à educação sofrem muito mais, tem menos valor nessa sociedade que a cada dia absorve mais e mais fascismo. O racismo, as desigualdades de classe e tanta coisa nos afastam e segregam...Mas uma coisa nos une, a opressão machistas!
Perdi a conta das vezes que me sentia culpada por ter nascido mulher. Foram tantas as vezes que eu questionava Deus/a o fato de eu não ter nascido homem pra ajudar a minha mãe, em todas as vezes que fui humilhada e agredida por ser considerada mais fraca e vulnerável, em cada vez que tomei a frente até mesmo de mulheres desconhecidas em sua defesa num momento de violência no meio da rua. Até encontrar aos poucos o feminismo, adquirir consciência de classe e rumar às desconstruções que perduram ainda hoje. Me fazendo mulher a cada dia, mas não essa mulher que querem que eu seja, que se cale, que perdoa, que não relate, que não exponha, que silencie. Precisamos vociferar, relatar as nossas histórias, colocar pra fora as nossas verdades. Quantas de nós se identificam com situações de abuso sexual, estupro, violência doméstica física e psicológica, assédio, tudo isso ferramentas cruéis de tortura da misoginia e do machismo institucionalizado? Mesmo assim, ainda vendo mulheres dizer que a outra é safada, vagabunda, puta, mulher que não merece ser respeitada, que estava até tarde na rua, que usou roupa curta e tantas desculpas pífias e vergonhosas para justificar aquilo que é injustificável e que sabemos muitas que estão em casa, apanhando sem motivo muitas vezes. Aprendamos de uma vez que respeito não se negocia, é obrigação para com toda e qualquer mulher. Já chega de compaixão pelos agressores e ódio e culpabilização das vítimas. Vou continuar dizendo, feminismo é libertação e não oposição. E sigamos contando nossas histórias, tristes, marcantes, de luta. Mas que sejam de superação. Eu acredito nas mudanças e vivencio tudo o que o feminismo trouxe pra mim.

Ana Paula Duarte

terça-feira, maio 17

Manual de como conquistar um amor

Manual de como conquistar um amor
É propaganda enganosa e golpista
Palavras são perigosas
Quando a arte da conquista é tão trivial
Não se tem escrúpulos na tentativa de dominar um corpo
Na expectativa de uma noite ardente
E na perspectiva de alimentar o ego.

Para conquistar um amor
Há que se ter a leveza
De naturalidade e do caminhar com pés firmes
Fincados no chão da realidade
As visões românticas são ideais inatingíveis
Apenas frustram e criam atritos
Melhor estar sossegado no desassossego da incerteza.

Não aperte, não prenda, não se mede forças
Já chega de amor patriarcal!
Respeite o indivíduo, suas particularidades
Ame em liberdade
Isso não é receita
Isso não é padrão
Amar não cabe em  modelos
Simplesmente é.

Mas também deixa de ser
Quando não é alimentado
Quando ostentatado e ou barganhado.
Quer amar? Se ame.
Quer cuidar? Comece se cuidando!
Quer a admiração de alguém? Não faça personagens.
Simplesmente seja. Sem máscaras.

Entre verdades e mentiras
Defeitos e qualidades
Entre imperfeições humanas tão peculiares
O simples é o mais difícil
Mais caro e mais complicado.
Por quê?
A nós, parece que o mais fácil é ceder as frivolidades e superficialidades.

Não invada uma alma
Penetra-a cotidianamente
Assim, de mansinho
Sem crer que exista qualquer manual
Capaz de tocar a alma humana
E provocar o amor instantâneo nas pessoas.
Não é quadrado, é círculo!
Só ame. Se ame. Sim, ame.











Imagem do Google


Ana Paula Duarte

terça-feira, abril 26

Papiro




O que fazer quando a frieza do gélido coração alheio afetar o teu?
Escreve moça, escreve, não para que cesse a dor, mas para que se esvazie o peito e os pensamentos todos nublados e esvoaçantes se assentem no território de teu corpo.
Abandona este romantismo bobo e vil com que te ensinaram a amar. 
Se reveste da força de teu pranto e aprende de uma vez que se não faz bem não vale a pena. 
Quantos mais serão necessários para dar fim a esse vício? 
Melhor seria se nunca tivesse sido? Não! 
Melhor seria se tivesse sido e encerrado com palavras duras. 
Assim, não restaria nenhum elo, nenhum consentimento. E  então, sem nenhuma afetividade seguíssemos nossos rumos rotos.
Agora, eu que sempre sofro, choro e lamento, só quero escrever. Não pra eternizar, mas para me limpar desses detritos que fazem mal. 

Que já não cabe na mulher em mim. Que não tem laços com a vida que escolhi e tampouco merece que dispense tempo a lamentos e dores. 
Ces' t finnite em nome de verdadeiros afetos: amor próprio, coragem e força. 
Pois ninguém merece o silêncio e muito menos os monossílabos de quem vive na confusão de egos e no medo que paralisa a vontade.
 Arvora tua alma e desaparta de mim. 
Deixe-me voltar a acreditar que posso não repetir o mais do mesmo, que posso viver mais... 
Que ainda posso amar um amor diferente deste, tão igual a todos os outros.
Despe de teu egoísmo e deixa-me, ignora-me, condena-me ao fim. 
Mas dizes algo para além de tua prática comumente conhecida por todos: a covardia de nunca se posicionar, de não tomar um lado, de nunca decidir. 
E já que não se decide, respeita ao menos a minha decisão: prefiro seguir só e longe dessa dor que sempre foi o apego, a instabilidade e os vícios dessa cena adoecida.
Vou, não volto. Não olharei mais para trás. 

E ainda que o destino me reserve a solitude, será melhor que a solidão em tua fantasmagórica companhia.
É hora de abandonar o papiro e revolucionar o papel.

Aníssima Duarte

Segurei este texto por alguns (longos) meses, na certeza de postá-lo quando tudo o que escrevi aí fizesse sentido. Hoje faz muito sentido. Transcendeu o mundo das palavras.

*Imagem do Google.

segunda-feira, março 28

Dor

É de doer
É de sangue e fel
É irmandade e desordem
Torpe, enche o cálice
De ódio
E bebe
O lobo vestiu-se de cordeiro
E fala manso
Eu vossífero!
Na minha sã loucura
Ouso amar o lobo
Na inocência tola de que serei poupada.
O que são laços? 
O que é mesmo a esperança
Quando a ojeriza de um olhar 
É capaz de dilacerar a alma?
A vida, essa de ciclos desnivelados
Nos desvela nos mais sublimes e mais vis sentimentos
Pra nos mostrar o quanto é tudo uma ilusão
O quanto somos e estamos

Sozinhos.













*Imagem do Google


Ana Paula Duarte

terça-feira, março 22

Nova Macabéa


Tal qual a outra,
Essa Macabéa sonhava pelas ruas da cidade
Não vinha da vidente
Mas iria comprar o pão diário e alguns sonhos na padaria.
Estribuchou-se no chão.
Três tiros
Mais uma negra da favela morta
Mais uma pra aumentar a estatística.
A hora da estrela
Viria momentos depois
Quando num porta-malas de um camburão
Foi vista pelas câmeras
Já não estava entre nós.
Não foi estrela outrora
Não teve direito a dignidade
Não fosse a tecnologia e a interatividade,
Seria apenas um número frio
Mas tornou-se vítima do vil
Assim que apareceu nas TVs de todo Brasil.



Foto retirada dessa ótima sugestão de leitura 


Ana Paula Duarte

sexta-feira, março 11

O amor pragmático do século XXI

                                                                    Imagem do google

Insipiente
E
Insípido

E

Objetivo

E

Mensurável.



Usurável

E

Comedido
E
Ameno
E
Fatídico.

Finito,
Impessoal
E
Líquido...


Ana Paula Duarte

quinta-feira, março 3

Em minha vida uma Malandrinha

              Há cerca de dezenove anos atrás, eu tinha dez anos, quando a minha mãe foi ao açougue comprar um bendito de um frango e lá começou a conversar com outra mulher, também mãe. Do meio para o fim da conversa, essa mulher lhe disseque havia se tornado evangélica e queria ir a uma igreja para visitar. E foi aí que minha mãe indicou a igreja que frequentava, no bairro.
                Eu nem sabia dessa conversa até um dias desses. No domingo fui à igreja, era dia de batismo e iríamos todos num ônibus fretado para uma igreja no centro da cidade. Vi que se aproximava uma mulher e seus dois filhos, uma menina mais ou menos da minha idade, de olhos muito vivos (foi o que mais me chamou atenção) e um garotinho. Eles vieram para o culto, mas como não haveria naquele dia, a senhora disse que voltaria em outra oportunidade.
                Dias depois eles voltaram à igreja, em outro domingo de manhã. Naquela época eu ajudava na classe das crianças, na Escola Bíblica Dominical, era uma espécie de “líder” e adorava dar ordens e me sentir útil, eu nem sabia, mas os primeiros vestígios de docência já apareciam em minhas práticas. Foi então que a menina de olhos vivos (e enormes) veio para a classe. Naquela manhã eu odiei a EBD (Escola Bíblica Dominical). “Que menina mais chata”, pensava eu, já que a menina falava mais que eu mesma e também era muito inteligente (das modéstias...risos). Da antipatia para uma intensa amizade foi ligeiro. Nos tornamos amigas e ano a ano a amizade crescia.
                Me lembro das tardes de domingo em que levava minha caixa de brinquedos para a casa da menina. Sempre fui muito bem recebida por sua mãe, uma mulher de fibra e de fé. Naquele tempo eu não entendia muita coisa, mas foram tantas amizades, aventuras, histórias e pentelhagens a compartilhar que nossas mães se confundiam, cada hora uma aparecia para reclamar de nossos comportamentos nada comuns para garotas de 12, 13, 14, 15 anos! Chegamos a era dos namoros...Ah, quantas boas lembranças trago na memória afetiva.
                Crescemos juntas. Aquela menina magrela junto comigo foi se tornando mulher. Com ela e sua pequena família vivenciei momentos de descoberta e um lado mais leve e amoroso da vida. Fui agregada e hoje costume dizer que se brincar de tanta amizade, até o sangue já deve ser o mesmo. Em tempos de faculdade nos afastamos. Ela foi morar fora, eu fiquei estudando na cidade. Seguimos caminhos diferentes sem que precisássemos nos afastar.
Já mulher percebi que sua mãe, aquela senhora que sempre admirei e respeitei, já não era a mãe da minha melhor amiga, havia se tornado uma amiga, companheira de festas, alegrias, momentos iluminados que perpassam agora pelos fios de minhas recordações. Com ela pude cantar até ficar cansada e sem voz a Malandrinha de Edson Gomes, comemorar vitórias, pedir conselhos, ouvir reclamações e exortações importantes. Ela me tratou como filha e como tal, não passava a mão pela cabeça, não facilitava nada. Acredito que poucas tiveram tanta sorte como eu na vida. Encontrei amigos na caminhada, me enriqueceram, me fizeram ser mais gente e buscar o bem coletivo, mas o melhor de tudo isso: me ensinaram a amar, a resgatar minha autoestima e acreditar em mim mesma, coisa muito fácil, mas não no meu contexto de vida, tão cheio de dilemas e complexos familiares que venci graças ás pessoas que me fortaleceram no caminhar.
Essa mulher se foi há quatro dias. Perdi a mãe da minha amiga, agora órfã. Perdi uma grande amiga, um ícone, exemplo e referência de mulher empoderada, de vanguarda, feliz...Eu conheci e fui feliz com uma pessoa que viveu a vida intensamente, batalhou, que nunca se rendeu e que lutou até o fim, uma luta desleal, mas que enfrentou com dignidade. E ela se foi na minha frente, em meio aos bate papos de sempre. Deixou de respirar, o coração parou e ela se foi num piscar de olhos. Eu não queria acreditar, eu não queria aceitar que acontecia ali, naquele momento em que falávamos sobre tantas possibilidades... E quando ela se foi, parece que eu nasci, ou renasci, não sei bem. Mas as coisas mudaram mais do que nunca.
É a segunda vez que a morte me acerta. Primeiro foi meu avô, meu avozinho que se foi e a partir de então aprendi o que de fato é a saudade. E agora, lá se foi a Malandrinha, com seu sorriso largo, suas belas pernas, ela era um raio de sol! E foi naquele momento em que a vi sem respirar, sem sangue a circular, que eu tive a certeza: nada acaba aqui, há sim um plano espiritual e talvez a morte seja apenas a libertação de um corpo físico doente, limitado, passageiro. Que logo vira pó e retorna a terra.
O certo é que, enquanto ela não mais respirava, brotava em mim um novo fôlego de vida. Vida essa que quero compartilhar com a minha amiga, a menina de olhos vivos e que herdou as belas pernas e o sorriso da mãe. Na verdade, sinto o amor brotando com tanta força em meu coração, que o tempo é pouco para tanto. A vida é agora. A hora é agora para amar a quem amamos. Correr atrás dos sonhos e viver em plenitude, sorrir de verdade e amar...amar de verdade!
A Malandrinha me ensinou tanto! Tivemos tempo para nos despedir, pouco a pouco ela se foi...Até que nós a liberamos desse sofrimento terreno. Me lembro bem da conversa mais longa da minha vida, durou poucos minutos, mas valeu por toda a minha vida. E agradeço porque há muitos anos atrás minha mãe indicou que ela fosse a nossa igreja e que essa família adentrasse na minha vida para mudar as minhas perspectivas. Agora entendo que foram presentes enviados por Deus! Por mais que eu escreva (é deveras difícil mediante a tanta emoção), as palavras não são suficientes para mensurar um mínimo do que eu vivi ao lado da eterna Malandrinha, ei de encontrá-la ainda, só não sei quando. Por ora, sigamos vencendo a dor e vivendo com mais coragem e desprendimento.
E a vida prega dessas peças...Leva uns, faz nascer outros, se renova. A Malandrinha se vai e sua ida me ensina tanto...Estou tirando da dor o aprendizado para qualificar a minha vida, ser mais grata. Jamais vou esquecê-la, isso seria impossível. O mais bacana de tudo é que não existem arrependimentos, tudo foi dito e vivido em sua intensidade. Tive tempo de dizer a ela tudo isso que agora escrevo e receber em troca um " Tu é linda Ana Paula, eu te amo, viu?". Como não amar alguém assim, que chega à terra pra nos dar amor? Inesquecível! "Pois não havia chance alguma de um dia você ser minha, ah...Malandrinha..."


A música que ela tanto amava...dançamos tantas vezes...e cantamos também...Obrigada Deus, por tantas dádivas!


O sorriso mais lindo e escancarado que já conheci...


"A"s melhores viagens foram com ela...

Ela me agregou à sua família e me fez conhecer tantas pessoas especiais...
Ela deixou pra mim a amiga-irmã mais maravilhosa do universo que é pra gente se cuidar.


Amo você daqui até a eternidade Marly Fernandes!

sábado, janeiro 9

Sobre amor e outras bobagens



     Cheguei a conclusão que encerro ciclos importantes na minha vida ao final de cada década...10, 20...e por aí vai. E me lembro bem das minhas dificuldades e excessos nos meus apegos. Seja para guardar o que não mais me servia por força do hábito, como tentar ressignificar pela milésima vez desenhos feitos com lápis apagado. Não dá pra ser tatuagem, não é tinta permanente.
     Uma vez escrevi que Sou um atracadouro, talvez já não concorde mais com parte do que está lá grafado, uma vez que já não me sinto um atracadouro, e sim um barco ao mar da vida, a desbravá-la. Nessa analogia de atracadouro a gente fica parada, esperando que as coisas cheguem até nós. Em minhas ansiedades sempre fui complicada quando o assunto é esperar, simplesmente não consigo e então sempre tomo a iniciativa nas atitudes, tudo o que me faça adiar a espera e adiantar as coisas.
     Nessas navegações de quase três décadas já vivenciei muita coisa bacana e também muita coisa triste. Tudo isso me ajudou a construir a minha caminhada, minhas preferências e escolhas. Em 2015 fechei mais um ciclo. Um ciclo importante, pois de tão intenso, desejado e viciante, entre idas e vindas ao meu atracadouro lá se foram dez anos. E agora, ando tão preocupada com o tempo...A verdade é que não quero acreditar que perdi tanto da minha vida pra não realizar uma idealização da minha cabeça, problemas de ego de toda geminiana com lua em sagitário (agora até astrologia me interessa sim). Mas me recuso a ser essa pessoa que, amargurada, acha que só perdeu tempo numa ilusão e se envergonha de ter devotado tanta vontade em fazer uma relação dar certo. Planejar sonhos diários de uma vida nunca pode envergonhar ninguém, mesmo que sejam romantizados. Acho até que hoje em dia é um ato de coragem, ainda que bobo. Somos todos/as bobos/as em tantas situações, mesmo.
     Mas eu quero falar do amor que deixou de ser, a partir do momento que já não era alimentado. Pois sim! O amor não começa num passe de mágica e nem acaba sem nenhum desgaste ou arranhão. Dos relacionamentos que tive, fui adquirindo cicatrizes, algumas muito pequenas, quase invisíveis, outras maiores, oriundas de feridas dolorosas, mas que acabaram, senão não seriam cicatrizes. Não as ostento, mas sempre as tenho em vista, para não esquecê-las, para que continuem me ensinando. Que me ensinem, sobretudo, a nunca me acovardar. E me encorajem a continuar me permitindo, não mais o apego, a permissividade, mas a entrega, sim! Há diferenças semânticas nessas palavras...dentre as quais quero destacar que a entrega é ímpeto, é mergulho, mas diferente do apego, em que se mergulha, se navega, se movimenta. O apego é estanque, é parasita. A entrega é coragem, emoção, nem sempre pressupõe doação, nem possui precaução.
      E falando da precaução, nunca fui muito simpática a mesma. E a cada dia que passa fico menos simpática. Sinto que a medida que vamos envelhecendo nos enchemos de da mesma em nossa vida. E nessa mania de precauções e estímulos, ao fim dos sentimentalismos e ascensão da racionalidade em níveis nunca antes existentes, só simbolizam a liquidez e o individualismo da Pós Modernidade, na qual as pessoas por medo de serem sozinhas se unem às outras, porém continuam na solitude, em sua total incapacidade de entrega, evitando assim o sofrimento. Acho que estamos esquecendo que o sofrimento é um dos combustíveis desta máquina chamada ser humano.
       Tenho me sentido cada vez mais corajosa. Já sou exposta, decidi me expor ainda mais, mostrar a minha existência para mim mesma e para o mundo. E por isso é que ando cada vez mais com preguiça de ter que me relacionar com pessoas covardes. Talvez elas estejam ainda na fase de se sentirem atracadouros, que sempre esperam as iniciativas e a força da maré de outrem. Ou talvez eu esteja apenas juntando despojos e buscando explicações. 
       O fato é que das dores e delícias de nossas vivências, essas que não devem nos fazer mais velhas e amargas, e sim mais fortes e seguras de quem somos, que nos ensinam a aprender também com os outros e não achar que a frase "nenhuma dor dura para sempre" é só um clichê, mas trazer a existência a sua mensagem e entender que fantasiar na primeira desilusão, calar diante de um grito, ou não exigir uma definição num momento crucial é negar ao outro a sua responsabilidade de alimentar aquela relação, a garantia da tão desejada reciprocidade, que talvez nunca chegue, pois não nos cansamos nas expectativas que vão nos traindo a cada dia, a cada ano, a cada vez que não vimos o esforço da outra parte, mas acreditamos na mais idiota e esfarrapada desculpa, muitas vezes mais por ego nosso do que por amor ao outro.
       E qual a parte boa no fim dos ciclos? Os aprendizados proporcionados, lógico! Só essa reflexão toda já valeu os anos, ainda que as grandes expectativas "para o resto de nossas vidas" não tenham se concretizado, lembrarei que não sou mais atracadouro, mas comando o barco da minha vida. Bom mesmo é aproveitar essas lições. Essas dores e delícias supracitadas, as solidões e solitudes que nos forjam e nos preparam para novas entregas e novos mergulhos. E quando chegar a hora da entrega, do mergulho novo eu possa me despir do que era, ir nua, sim, sem os vícios, as manias e defeitos que desgastaram a antiga relação. Caso contrário, corro o risco de vestir as velhas e surradas roupas, acabar apertada e sufocada em algo que já não me cabe.
        Ou, como estou rememorando textos passados, acabar como a crônica do Homem e o Cadáver, que até esqueceu seu maior sonho pelo hábito doentio de seguir um ciclo, rodando em círculos sem a coragem para seguir em frente. Na vida acabamos por colecionar muitas frustrações, muitas coisas que sonhamos não acontecem. Ma como nos posicionamos diante dessa frustração decidirá o rumo que daremos e a capacidade humana de produzir sonhos, de sempre buscar...E até mesmo de acreditar que aquilo que já não é não significa que nunca foi. Só não precisa permanecer eternamente pra provar que foi de verdade.
    E como diz o poeta do cotidiano e músico baiano Pedro Pondé "Entenda uma coisa. Você nunca vai encontrar o que procura. Você não foi feito pra encontrar. Nasceu pra gostar de procurar."

Passei muito tempo me comportando como Alice, quando na verdade eu sou Aníssima.

sexta-feira, janeiro 8

Experimentações com o Inciclo

     Iniciando as postagens de 2016 numa tentativa de retomar o blog aos poucos e dentro das minhas possibilidades, nada mais ilustrativo que começar contando um pouco (talvez muito e com detalhes- ahaha) da minha experiência com o coletor menstrual Inciclo.


Eis o Coletor Menstrual Inciclo ( a foto tá escura, mas na internet tem muitas fotos em boa qualidade)


     Então, algumas amigas já haviam me falado sobre o coletor, fiz pesquisas na internet, até que conheci pessoas que deixaram o absorvente (externo e interno) de lado para fazer uso do coletor. Dentre as muitas maravilhas narradas, entre a questão do produto (que é patenteado) ser sustentável e se preocupar de forma diferenciada com o Meio Ambiente, fui preferencialmente simpática ao fato de não precisar mais usar o absorvente externo, uma vez que seu uso sempre me trouxe incômodo, como assaduras, vazamentos, enfim, coisas que muitas mulheres enfrentam e já enfrentaram, sem contar que  mesmo tendo tentado usar o interno, achei até pior, uma vez que a cada vez que eu precisei urinar, as coisas ficavam terríveis e como eu trabalho viajando muito, nem sempre encontramos banheiros adequados e com as situações de higiene que se espera.
      E como não existem coincidências, acabei conhecendo a linda da Jaqueline Almeida, que é proprietária da página Coisas de Brisa, que comercializa o Inciclo e outros produtos numa proposta super bacana, e a ela confiei essa minha "iniciação". A Jaque, pessoa de temperamento doce e tranquilo tirou todas as minhas dúvidas, até mesmo sobre se podia mesmo mesmo fazer xixi usando o coletor ( e sim, ela disse pode...não é LIBERTADOR? É!). Mas, mesmo perguntando, pesquisando, vendo desenhos e vídeos, na hora de usar, todas as dúvidas vêm à tona, mas aí lembrei das experiências das outras mulheres, das orientações e de tudo o que lemos, é quando fiquei mais segura.
        Mas sigamos, meu Inciclo chegou via Correios, todo embaladinho. Abaixo segue uma foto ilustrando o que acompanha: um manual bem ilustrativo para tirar qualquer dúvidas e com informações do produto e um saquinho onde será guardado o meu coletor. E quando chegou, eu queria que minha menstruação descesse na hora... Ela já estava era atrasada (não, não estava... rs), só para eu poder experimentar, contar e repassar essa minha nova descoberta.
Acompanham a caixinha o manual e o saquinho para guardar
O manual

       E lógico que antes de desbravar o coletor no meu corpo, fui desbravar o produto e suas curiosidades, que são informadas de modo bastante claro no manual. O coletor é um copinho de silicone super flexível, que deve medir uns sete centímetros (com a haste) e que pode ser escolhido em dois tipos. O meu foi o tipo B, indicado para mulheres com menos de 30 anos e que não tiveram filhos. O tipo A é indicado para as mulheres com mais de 30 ou que já tiveram filhos, sendo de parto normal ou cesariana.

O "copinho" é super flexível e confortável...só não é acessório de nariz...risos

       Foi quando chamei minha mãe pra contar a novidade e mostrar a ela o coletor. E ela fez aquela cara feia das mães que sempre ficam inseguras e com raivas das “novidades modernosas” das filhas e me disse: “Essa PESTE vai te causar infecção.” Lógico que NÃO causa infecção nenhuma...sem contraindicações. Eu fiquei com raiva e tentei respirar, mas soltei devolvendo: ”Algum dia, em algum lugar, alguma mãe deve ter chamado o absorvente convencional de peste ou até dito que era bruxaria. Sou de vanguarda, mainha!” Lógico que não falei em tom delicado, mas depois tratei de mandar uns links para o whatsapp dela, pra ela ir lendo, conhecendo e acostumando. Depois também refleti que essa é uma reação natural, afinal não estamos acostumadas a entender que se na nossa vagina entra um pênis e demais objetos eróticos e inclusive sai um bebê, um coletor menstrual é fichinha. Tudo ligado a nossa vagina é muito regrado e muitas vezes demonizado, nós não podemos nos esquecer que o corpo é nosso!
       Passada essa fase, fiquei esperando a menstruação. E quando ela chegou eu fiquei toda atordoada com os nomes técnicos do manual (tipo, onde é mesmo que fica minha vulva? kkkk) e lá fui incursionar o coletor, conforme explicação do manual, em meu corpo, ou melhor, na minha vagina. Foi aqui que comecei a viajar sobre como os corpos das mulheres são vigiados e como nós conhecemos tão pouco deles, como fomos educadas para não tocar, desbravar, enfim...Sei que tenho desconstruído isso a cada dia, entendendo que a educação que recebi é reproduzida e incentivada com a intencionalidade de nos mutilar de muitas formas. E é justamente por saber disso que a cada dia busco me conhecer e afirmar isso como ato político (até mesmo o fato de estar aqui agora descrevendo uma experiência pessoal), quebrando mais um tabu besta.
         Nas três tentativas de colocar o coletor, encaixei certinho na quarta, em que o dobrei na forma de “u” e fui soltando aos poucos no canal. No manual dizia que eu poderia cortar a haste caso incomodasse, mas preferi não cortar para facilitar na retirada. A colocação não foi incômoda, fui tateando mesmo. Afinal, o nosso corpo não é secreto a nós (ou ao menos não deveria), não é?
         Para o momento da retirada, fiquei apenas oito horas com o coletor pois já estava na expectativa da retirada, quando o manual avisa que pode ficar até 12 horas com ele, dormir, praticar esportes, enfim. Só de saber que não vou mais ter que aguentar a aba de um absorvente assando a minha virilha, já sinto a liberdade, entre tantos outros benefícios que irei sentindo aos poucos, visto que essa é uma experiência ainda tão nova para mim, mas que já vale a pena compartilhar, pra encorajar as minas, as tias, as primas, enfim, todas as mulheres.
Mas, voltando, porque eu sempre fico passeando na escrita, quando fui fazer a retirada no banheiro me preparei para fazer uma verdadeira “meleca”, uma ideia muito naturalizada que fazemos da nossa menstruação, mas nem foi. Simplesmente me abaixei, segurei a haste, fiz um giro nela lá dentro e fui puxando. Não houve vazamento. Mesmo! E olha que o manual indicou que eu usasse o absorvente externo até que sentisse segurança, só que eu não quis mesmo voltar a usá-lo, nem sendo aquele em tamanho mini. Depois da retirada, joguei o conteúdo no vaso sanitário, dei a descarga e fui para o chuveiro lavar o coletor. Lavei só com água porque aqui em casa estava sem sabão neutro, sequei com uma toalha exclusiva e recoloquei, simples assim.
Meus próximos procedimentos serão depois separar uma panela que vai ficar exclusiva para meu coletor e irei ferver o mesmo por uns cinco a seis minutos, enxugar direitinho com a toalhinha e armazená-lo no saquinho que veio junto com a embalagem.
Estou fazendo o uso do Inciclo há dois dias e tenho me sentido bem segura, sem nenhuma restrição, sem nenhuma dor. Avaliando o uso, para mim muito melhor que o absorvente. Já fazia um tempo que para dormir eu estava usando o artesanal, que é tipo um pano e, por algumas vezes, chegou a vazar. Eu detesto quando vaza, me dá muita agonia, então me senti tranquila com o Inciclo. Então, logicamente recomendo demais o uso, por todos os motivos já citados. Financeiramente é super viável, não fiz a conta de quanto estou economizando no valor de compra dos absorventes, mas para mim foi um bom investimento, o Inciclo custa R$ 80,00 reais e tem a durabilidade média de 2 a 3 anos a depender de como iremos manipular e higienizar.
E é isso minas, o Inciclo para mim é liberdade, empoderamento, descoberta...Que possamos experimentar, pois!

Ana Paula Duarte

segunda-feira, dezembro 7

Das elucubrações de fim de tarde numa segunda feira

                 Eu não entendo como a vida cristã tem se tornado cada dia mais pesarosa...
                Cadê a leveza? O refrigério, a revigorança e a renovação de cada manhã?
                 Estamos cada vez mais amargurados e amarguradas, cheios de normas, regras, linhas de fronteira entre o "certo" e o "errado". Nosso gatilho (os dedos) são hábeis em apontar para as pessoas e lhes sentenciar, julgar, acusar e colocar num lugar de perdição (que é sempre o inferno).
                E a cegueira fundamentalista é tanta, que acabamos por perder a admiração de pessoas importantes, tornando as relações insuportáveis. Nós e nossa intransigência, nossa ideia desfigurada, nosso maniqueísmo, hasteando a bandeira da verdade absoluta. Pondo a bíblia do lado esquerdo do braço e com um coração vazio de amor, cheio de amargura, proliferando rancores e repressões.
                Evitamos o livre pensar porque o tornamos um ato pecaminoso (e eu me pergunto por que bulhufas temos cérebro), mas isso é só a demonstração de uma fé rasa. Não percebemos que estamos colocando as pessoas do "mundo" no inferno, mas somos nós que estamos nele. Com o nosso desamor, nossa chatice e nossos chavões prontos. Uma vida decorada de versículos bíblicos que são diariamente levados por qualquer ventinho... E o tal do amor ao próximo permeia o campo do discurso. Mas como amar o próximo se é difícil amar a nós mesmos?
        Não estou a fim de batalhas fundamentalistas, quem quiser uma discussão dialética saudável, estou a postos, mas se for pra vir vomitar sandices, meus (minhas) irmãos (irmãs) nem comentem.
Estou no exercício democrático do meu livre pensar sobre nós.

Afinal, que tipo de "luz " é essa que queremos ser no mundo? 

terça-feira, novembro 10

"Que tempos são esses que temos que defender o óbvio"

      Entre as milhares de ebulições, revoluções e coisas que tenho vivido (e muitas delas silenciado), uma das coisas que mais incomodou este meu silêncio da palavra escrita, foi a polêmica que envolveu a blogueira Gabriela Pugliese, sobretudo para mim, o que mais incomodou foi a sua resposta.
     Vivemos tempos difíceis. Mesmo! Tempos em que somos ameaçados por monstros, fantasmas ideológicos, por mentiras que incitam pânico e terror, tudo isso de forma muito bem arquitetada e intencional. As pobres pessoas do mundo sofrem com a ditadura da minoria feminista, gay, ateia, esquerdista, negra, entre tantas...E agora, também há a ditadura gorda. Me façam uma garapa bem caprichada, por favor!
     Tem horas que eu peço pra ficar burra e aguentar. Ser alienada pra aturar as coisas que tenho ouvido e lido por aí. Pois bem, a Pugliese, em sua justificativa para seus mais de 500 mil seguidores, desde que suas conversas com amigas nas quais ela deixa claro que mandaria nudes caso elas não conseguissem atingir as metas de suas dietas, chocou a opinião pública e foi um grande assunto nas redes sociais.
     Diante de tantas críticas, a justificativa de Gabriela foi dizer que existe hoje uma criminalização das magras. Ah, Gabriela, minha querida, que grande merda você falou.
      Lembro-me bem de quando aos 12 anos eu comecei a enfiar o dedo na goela pra vomitar o que eu comia por não aguentar as dietas. Depois disso, sofri ainda mais, pois a cada vez que comia, eu já não precisava enfiar o dedo na garganta, a vontade vinha descontroladamente. Eu emagreci, fiquei com corpo esbelto e enfim, fiz o sucesso que sempre quis com os garotos. Permaneci magra até os 25 anos, quando comecei a engordar devido uma disfunção na tireoide que mudou o meu corpo.
     Ah, Gabriela, depois que eu engordei é que senti na pele o que é a ditadura da beleza. Em cada roupa que eu vesti e que não cabia em meu corpo porque não foi feita para mulheres acima do peso. Mulheres? Não, botijões, baleias, sapas gordas...E te digo, há uma enooorme diferença entre ser chamada assim e ser chamada de vareta, tripa seca e caveira. Todas essas formas pejorativas só expõem o mal que essa ditadura de um ideal, de um tipo, de um perfil único causaram a nós e causam as nossas meninas hoje.
      Hoje aos 28 eu já não quero o corpo dos 25. E nem posso. Não tenho paciência. Me aceito assim, porque sou saudável mesmo tendo uma pancinha. Mesmo não sendo a diva, a musa fitness, não me considero menos mulher.
      Mas não posso me calar diante dessa ideia de perseguição à magreza, porque sabemos que ela sim é valorizada. Então, porque o fato das gordinhas estarem se empoderando e inclusive, se levantando para criticar a sua total falta de noção da realidade e o seu desrespeito para com o corpo de suas amigas, te causa tanta ameaça a ponto de você dizer que se sente perseguida? Não estamos numa disputa entre magras e gordas no mundo. Alias, deveríamos lutar pelo fim dessa ditadura da beleza que faz mal a todas nós. Que nos limita e nos entristece, não permite que nos aceitemos, que nos amemos.
     Dentre esses mais de 500 mil seguidores de Pugliese a maioria é adolescente. Como ficam suas cabeças, quando uma figura pública sai em defesa do indefensável? Acaba reproduzindo mais estigmas, mais baixa autoestima e rejeição nessas meninas, já que a maioria das mulheres brasileiras nãotem biotipo de magra.
      Não Gabriela, preciso te corrigir: não são as magras que são criminalizadas. Nem as gordas. Basta que sejamos mulheres. Eles nos dirão como ser mulheres, o que fazer e como vestir, como alterar nosso corpo para agradar ao perfil construído, entre outras opressões e docilizações sem sequer nos perguntar o que é mesmo que nós queremos.
   Não assevere a opressão, não crie mais disputas, quer ser magra, seja magra. Quer engordar, engorde. Faça o que for melhor para você e sua saúde. Só não compare. Chega de objetificações!


Eu estou escrevendo sobre o óbvio, porque os tempos pedem isso. 




Vejo essa nova leva de blogueiros e blogueiras em seus desafios de comer alho, pimenta, beber gororobas, ensinar a perder 1 kg por semana. Aqui vos desafio a ler, pensar, comungar ou criticar o que escrevo. Vamos?

Ana Paula Duarte

quinta-feira, julho 16

Equidade, gênero e PME’s



Ana Paula Mendes Duarte[1]

Nas discussões sobre os processos de educação que pairam no Congresso Nacional desde 2013, acerca do Plano Nacional de Educação- PNE, dos 26 deputados que votaram na Comissão Especial da Câmara dos Deputados no final de 2014 e início de 2015, 15 votaram a favor da retirada da questão de gênero no artigo 2º, e 11 votaram contra. Nisto, a questão foi retirada do texto final, o que configura um grave retrocesso na educação brasileira, que desde 2010 já tentava adicionar a questão de gênero no PNE, para que o mesmo fosse mais um instrumento em defesa da superação das desigualdades no país e que fosse o mais democrático possível, assumindo caráter laico, ético, democrático e inclusivo.

A celeuma foi fomentada pelos representantes que fazem parte da chamada bancada evangélica e religiosos ( de alguns segmentos neopentecostais e setores da Igreja Católicos conservadores e fundamentalistas) que usaram como argumento de que havia a tentativa de colocar a “ideologia de gênero” no PNE para destruir as famílias brasileiras, e que os diversos movimentos sociais e demais segmentos em defesa de uma educação problematizadora estavam impondo isso.

O texto era o seguinte: “superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação”.  Foi proposto um termo mais geral que não dava conta das especificidades e o texto acabou retirado do PNE.

Texto suprimido, a orientação dos Grupos de Trabalho e discussão da CONAE 2014 é de que o tema igualdade/equidade de gênero conste nos PEEs- Planos Estaduais de Educação e PMEs- Planos Municipais de Educação. A orientação aos delegados e delegadas da CONAE 2014, é de que os municípios possam assegurar a questão de gênero nas estratégias das metas, na busca de inserí-las, não enquanto ideologia, mas enquanto um tema candente e necessário na busca da inserção de práticas não sexistas e não discriminatórias nas escolas brasileiras.

Neste sentido, as comissões que elaboram os textos nos municípios utilizam o termo “equidade de gênero” nas estratégias das metas que observam as demandas e peculiaridades, seja na meta referente à formação do/a professor/a, pro exemplo, ou da universalização da educação no ensino fundamental II, ou na meta que dá conta da educação integral e assim sucessivamente.

Agora os municípios já elaboraram seus Planos Municipais e estão concluindo as Audiências Públicas, a maioria já se encontram nas Câmaras de Vereadores para votação e aprovação. Só que mais uma vez representantes religiosos das igrejas: católicas, evangélicas e neopentencostais estão apresentando resistência sem diálogo quanto ao termo equidade de gênero. Mas afinal, qual o problema do termo equidade/igualdade de gênero? A palavra equidade e igualdade são sinônimas. Segundo a etimologia da palavra equidade, a mesma deriva do latim aequitas, que significa conformidade, simetria e justo.

Mais polêmico, o termo gênero sofreu mais alterações de sentido e representação ao longo dos anos, veio também do latim genus, que significa nascimento, família, tipo. Já na derivação grega, o genos e genea trazem em seu significado o conceito de sexo (masculino e feminino). Este último em especial, tem uma íntima relação com os problemas enfrentados por conta do conservadorismo. Nos atuais estudos de gênero existem diversas teorias para definir e estudar na perspectiva de entender melhor o que é gênero, por que gênero e/ou desfazendo gênero. São estudos complexos, que estão sempre sendo refutados e problematizados especialmente pelo mundo acadêmico.

É um termo antigo, porém pouco refletido nesse sentido específico. Acontece que dentro dos estudos sobre gênero descobriu-se que durante muito tempo as sociedades se utilizaram das diferenças anatômicas entre masculino e feminino para construir desigualdades e estruturas fundantes como o patriarcado e o machismo, que permaneceram nutridos, até que outros estudos apareceram para buscar a desconstrução dessas estruturas que se tornaram padrões.

Outra questão importante é que em seu significado gênero não é uma ideologia. Ideologia é doutrina, visão de mundo, conjunto de ideias. Gênero dá conta dos padrões engendrados para categorizar e caracterizar o masculino e o feminino.

Como o compromisso do Plano Nacional de Educação é contribuir para o fim das desigualdades no Brasil, abordar gênero tem total lógica. Uma vez que, enquanto instrumento de formação e transformação dos sujeitos sociais, a educação tem compromisso com a justiça e o respeito às diferenças, neste caso específico, diferenças que são traduzidas quando abordamos gênero na escola, buscando desfazer os padrões estabelecidos que acabam fortalecendo a ideia de que masculino e feminino tem diferenças gritantes e que há superioridade e dominação de um para o outro.

Assim, unindo as palavras “justo”, “igualdade” e “simetria” à palavra gênero (masculino e feminino) o que temos é o incentivo à igualdade de direitos, ao não sexismo e a não discriminação, para que a educação possa problematizar os comportamentos violentos, machistas, misóginos e cruéis que afligem homens, mas principalmente as mulheres em nossa sociedade. Para que iguais e diferentes sejam respeitados.

Nos Planos Municipais e possivelmente nos Estaduais, o que vai aparecer é o termo enquanto estratégia e de acordo com a demanda dos municípios. Existem vídeos desvinculados da realidade racional que induzem propostas e teorias de outros países, calúnias e exageros que não cabem no que se propõe o PNE, que é a base para os demais.

Portanto, fica em aberto o convite para uma análise mais profunda do PNE. E também dos PMEs e mais atenção aos PEEs que vêm por aí. Desde 2013 os debates nas fases das Conferências em que envolveram todos os setores da sociedade já debatiam sobre equidade de gênero no PNE, mas por falta de informação e fundamentalismo de nossos representantes, o termo tão atual e importante acabou sendo suprimido, como se na escola isso fosse ser ‘invisibilizado’. E nisso sim, atenção, pois há uma ideologia por trás.

O estado brasileiro por ser laico, precisa respeitar as diversidades e buscar sanar as desigualdades, sejam elas econômicas, sociais, de geração, raça, etnia e gênero. A educação é a maior ferramenta contra a violência, o preconceito, o crime e, principalmente, a ignorância por falta de conhecimento.

Em educação não cabe religiosidade, maniqueísmo, binarismo e nem tendências conservadoras visando à dominação ou a desinformação para gerar o terror. Principalmente na era Pós-moderna, em que a informação é repassada com uma rapidez incontrolável e a quantidade de informações é diversa e não selecionada.

O desafio para uma reflexão menos superficial fica alimentado a partir das palavras de Renato Janine, Ministro da Educação, que lamenta ser “uma pena que a discussão tenha se desviado desse aspecto de liberdade das pessoas, que faz parte da educação. Educação é liberdade, é acolhimento, é democracia”.

*Para mais informações, fica a sugestão da leitura do PNE e por conseguinte dos PME’s. Disponível em http://pne.mec.gov.br/images/pdf/pne_conhecendo_20_metas.pdf

Aproveito para solicitar aos/as leitores/as e amigos/as para que compartilhem o texto, em contraponto ao que se tem divulgado nas redes sociais, no sentido do esclarecimento das pessoas a respeito do tema.

[1] Pós- graduanda em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça (UFBA), graduada em Letras Vernáculas (UEFS) e orientadora educacional.