Papiro




O que fazer quando a frieza do gélido coração alheio afetar o teu?
Escreve moça, escreve, não para que cesse a dor, mas para que se esvazie o peito e os pensamentos todos nublados e esvoaçantes se assentem no território de teu corpo.
Abandona este romantismo bobo e vil com que te ensinaram a amar. 
Se reveste da força de teu pranto e aprende de uma vez que se não faz bem não vale a pena. 
Quantos mais serão necessários para dar fim a esse vício? 
Melhor seria se nunca tivesse sido? Não! 
Melhor seria se tivesse sido e encerrado com palavras duras. 
Assim, não restaria nenhum elo, nenhum consentimento. E  então, sem nenhuma afetividade seguíssemos nossos rumos rotos.
Agora, eu que sempre sofro, choro e lamento, só quero escrever. Não pra eternizar, mas para me limpar desses detritos que fazem mal. 

Que já não cabe na mulher em mim. Que não tem laços com a vida que escolhi e tampouco merece que dispense tempo a lamentos e dores. 
Ces' t finnite em nome de verdadeiros afetos: amor próprio, coragem e força. 
Pois ninguém merece o silêncio e muito menos os monossílabos de quem vive na confusão de egos e no medo que paralisa a vontade.
 Arvora tua alma e desaparta de mim. 
Deixe-me voltar a acreditar que posso não repetir o mais do mesmo, que posso viver mais... 
Que ainda posso amar um amor diferente deste, tão igual a todos os outros.
Despe de teu egoísmo e deixa-me, ignora-me, condena-me ao fim. 
Mas dizes algo para além de tua prática comumente conhecida por todos: a covardia de nunca se posicionar, de não tomar um lado, de nunca decidir. 
E já que não se decide, respeita ao menos a minha decisão: prefiro seguir só e longe dessa dor que sempre foi o apego, a instabilidade e os vícios dessa cena adoecida.
Vou, não volto. Não olharei mais para trás. 

E ainda que o destino me reserve a solitude, será melhor que a solidão em tua fantasmagórica companhia.
É hora de abandonar o papiro e revolucionar o papel.

Aníssima Duarte

Segurei este texto por alguns (longos) meses, na certeza de postá-lo quando tudo o que escrevi aí fizesse sentido. Hoje faz muito sentido. Transcendeu o mundo das palavras.

*Imagem do Google.

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