Sobre os bafafás


***Agora que a poeira "baixou" dentro de mim, decidi escrever algumas linhas, na verdade, um depoimento sobre os dias de mobilização que vi se tornar onda e tomar o país. Estou aprendendo que é melhor esperar e não escrever com o sangue quente. Vai então o meu olhar despretensioso, mas, opinativo. É grande, não sei se vale a pena, mas, disponham!


     O que para muitos começou com os "míseros" vinte centavos, tomou proporções nacionais, se tornando comoção pública. Estava instaurada nas maiores cidades do país uma Mobilização que num só dia quis mudar os rumos de anos e anos de políticas voltadas para as elites e  os banqueiros.        
     Pois bem, todos e todas os/as brasileiros/as que se engajaram nas lutas sociais foram inicialmente conclamados pela questão da pauta de transporte público gratuito, depois, a coisa se expandiu contra a corrupção, contra o alto investimento na Copa do Mundo de 2014, em seguida vieram temas como saúde, educação, reforma política, etc, etc. As sujeiras foram saindo do tapete e revelando as revoltas e negações de séculos. O estopim! Haja estopim... Saiu cartaz com tanta reivindicação que os que dormiam o sono profundo da pasmaceira ressuscitaram!  
     E houve ainda àqueles que 'dormiam' tranquilamente por pensar que a 'casa' estivesse limpinha... Ledo engano! E foi aí que 'acordados', resolveram inclusive que em sua luta não caberiam partidos políticos, entidades e movimentos, que, durante o 'sono de Alice', sempre estiveram acordados, tentando arrumar essa casa suja, ou, ao menos, denunciando a sujeira debaixo do tapete. Entre estes já citados, houve quem visse a sujeira e comungasse com ela, pois de alguma forma sujaram as mãos e se beneficiaram. Houve quem teve a chance de começar a limpeza, mas no meio do caminho, também se lambuzou entre a fartura de imundícies. Muitos. Por isso a revolta 'mor', por isso o sentimento de nenhuma representatividade. E é preciso que a gente entenda, partidário, apartidário, anti-partidário,  suprapartidário, ou seja: este movimento novo deixou a todos e a todas 'mordendo os beiços' para tentar entender onde chegaríamos.
      Estaríamos todos sendo massa manipulada de uma Direita recalcada e fascista que pretende a todo custo retomar o poder? Olha, eu não duvidei disso. Inicialmente isso aconteceu. Mas, não vingou... Nenhuma representação teve vez ou conseguiu se aproveitar do Movimento de modo eleitoreiro... Não até agora! Até porque a conjuntura do país é outra. E todos/as os/as que tentam se dar bem as custas do movimento do povo são expelidos e expulsos...E àqueles que, fazendo parte de partidos e movimentos, lhes é negado o direito a liberdade da filiação e associação, do simples uso de símbolos que representam suas ideologias e bandeiras, que por sinal são rasgadas,  camisetas são queimadas tamanho sentimento de orfandade diante dos partidos políticos. 
       E quanta gente despolitizada reproduziu o discurso do opressor! Até eu tive vontade de esquecer partidos e organizações em nome deste novo sentimento. Foi época de Copa das Confederações, mas as bandeiras e camisetas do Brasil vendidas não foram por este motivo. Um sentimento nacionalista tomou conta das pessoas e todo mundo cantou a única parte conhecida do Hino Nacional! Entre os despolitizados, reacionários infiltrados, fascistas e politizados de esquerda, eu nunca vi tanta abobrinha e pataquada. Ô povinho extremista, esse nosso!
       Temos o grande defeito de generalizar: ou vamos para as ruas com todo o sentimento do mundo lutando por mudanças e externando as insatisfações por anos abafadas ao som do Hino e os símbolos nacionais, impedindo a liberdade e o direito das pessoas de lutarem com suas bandeiras, partidos e movimentos de esquerda que têm histórico de luta; ou, com representantes de esquerda autoritários que xingam as pessoas de burras, de despolitizadas e bitoladas, que a qualquer sinal de uma cor verde e amarelo se utiliza dos mesmos rótulos opressores para mostrar o seu desdém e uma teoria ideológica fabricada na Universidade.
        E o que tivemos de comentaristas de facebook não foi brincadeira! E por falar em facebook, que poder nós temos nas mãos com essas redes sociais, hein, gente? Foi um instrumento de mobilização e difusão das mais doidas às mais lúcidas ideias. Desde os Direitistas extremos querendo o Golpe Militar, a volta da monarquia e vomitando os mil e um livros que já leram na vida (ah, pequeno-burguês!), até da Esquerda revolucionária se preparando para serem os únicos arrotadores de revolução – ou tentando ser a contenção do Movimento.
      Os atores/sujeitos da Mobilização? Uns lunáticos, sempre permaneceram privilegiados e sem conhecer as dores e delícias de ser a classe trabalhadora- os famosos reaças. Outros, também lunáticos: filhos da classe média sonhando com o dia em se tornarão a opressiva classe dominante- pequeno-burgesuinho. E outros: filhos da classe média  ansiando mudança social e econômica no país, ou ainda, os filhos de operários, trabalhadores/as rurais, do comércio, da indústria, os oprimidos que tem seus direitos negados, a maioria que é minoria e que por falta de acesso ás informações  e tendo apenas o direito ao senso comum, segue a onda da vez, sem muita reflexão- o chamado de "alienado". E há ainda o oposto disso, filhos da classe oprimida conscientes de sua luta e de seus direitos garantidos por lei, porém não implementados e legitimados - os "politizados".
      Enquanto os sujeitos hasteiam suas bandeiras de luta (antes que alguém rasgue ou queime), a Polícia usava seus métodos nada ortodoxos de ‘sossega- leão’, fazendo seu papel de braço forte e torturador do Estado, demonizando o Movimento, com a ajuda da Mídia vergonhosa produzida e reproduzida neste país. E aí os partidos de esquerda começaram a tentar entender o porquê de tanta rejeição e resolveram dar as mãos. Mas, eu ainda duvido muito que essa união vingue. Há muita disputa de egos, é muita teoria arrotada, mas pouco conhecimento sobre este Movimento e por isso o medo. Os partidos de direita então, se aproveitam para ‘queimar o filme’ da esquerda com calúnias e constatações, mas em nenhum momento entende o seu papel de fomentador de desigualdades.
        Enfim, ainda não chegamos ao que parece ser o fim deste Movimento nacional que por aqui (Feira de Santana) se tornou municipal, com pauta concreta, atos e reuniões regulares e o melhor, ainda com quórum.
        No cenário de Feira de Santana pude vivenciar uma das maiores mobilizações dos últimos dez anos, que colocou uma média de dez mil pessoas nas ruas da cidade pautando as péssimas condições do Transporte Público, numa cidade em que se paga dois reais e cinquenta para passar no máximo trinta minutos dentro de um ônibus velho, sucateado e sujo, onde as autoridades locais se calam e se vendem diante da série de irregularidades existentes. Ah, aqui também se pautou a cura gay, o #forafeliciano, #obrasilcontraacorrupção, #aeducaçãonospadrõesdaFIFA e todo modismo nacional de se reivindicar tudo num único dia, numa única luta. Mas, passou e agora focamos em transporte público mesmo. Né? Perguntem aos adolescentes! Mani-teen-festantes! (Nada contra, desde que saibam as perguntas básicas do "para onde vou e o que quero com isso").

     
        Eu estou por aqui... Procurando ficar ACORDADA como sempre estive, ou ao menos tentei, independente dos gigantes. Curiosa e cautelosa em meus passos e tentando ajudar os demais nessa construção do novo.
        Já temos resultados significativos em muitas cidades e mostramos ao mundo que o nosso povo não é acomodado e passivo. Vem agora a polêmica de um plebiscito/referendo que têm deixado o pessoal de Brasília de ‘cabelos em pé’ e que tem gerado mais polêmicas e teorias conspiratórias (são outras conversas)!
      Acredito que devemos, com muita parcimônia, analisar fato a fato, mas sem se deixar levar pelos fatos fantasiados da mídia que se aproveita dos extremismos de todos os lados para criar uma ideologia do Movimento que a beneficie. Voltar para os livros de história para conhecer de fato a história de nosso país é a ordem do dia, pois assim, não a repetiremos. E creio que isso não acontecerá, pois somos outra geração, diferente.
      Pondero ainda que, como integrante de movimento e partido político de esquerda (sim, me representaram e me representam), que a gente não caía na armadilha de marginalizar os movimentos sociais e partidos, que a gente não seja manipulado a ponto de retroceder na história política deste país que, democraticamente, constituiu os partidos políticos. Como também que os que fazem parte dos movimentos compreendam a revolta e o descrédito contra os partidos políticos e as representatividades... Vocês dirão: ‘mas ela está em cima do muro’. Vos afirmo que isso é, também, um posicionamento! O que acredito é que a revolta é válida sim e tem fundamento. Nossos políticos precisam temê-la, mas não irei contra a democracia, contra o que os partidos construíram historicamente!
     E quero sim ter o direito de vestir, caso queira, o símbolo do partido ou movimento que acredito sem ter medo de agressão, usar a cor de roupa que eu bem entender e inclusive caso queira pintar a bandeira do Brasil no meu rosto, eu não seja chamada de fascista!


          Ana Paula Duarte. Militante do mundo real e virtual. Brasileira, cidadã expectadora e co-participante.



Gostaria de compartilhar um dos melhores textos que li sobre as possíveis análises deste Movimento que cresce nas ruas, e olha que foi difícil encontrar fontes no mínimo decentes. Segue aí, garanto boa leitura...Ao menos indica alguns sinais e é curioso como a gente! http://leonardoboff.wordpress.com/2013/06/28/as-multidoes-nas-ruas-como-interpretar/

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