Olhe para mim


Olhe para mim
E olhe bem
Veja só!
Uma foto não me capta
Não me rapta
E nem me adapta.
Quando criança,
Sonhava ter olhos azuis
E os cabelos lisos
Esquecia de agradecer por ter olhos e cabelos,
O que já é uma dádiva.
E mais que isso:
Esquecia de ver em mim a beleza
A imperfeita Ana
Certo desvio no olho
Sobrancelhas imperfeitas,
Orelhas grandes e ainda
Marcas de espinhas que persistem
E que a resolução da câmera de um celular foi feita para abrandar...
Cabelos rebeldes, cheios, rodopiam e fazem brotar cachos
Imperfeitos!
Sem esquecer de minhas pernas tortas
Ou da barriguinha saliente que os 27 anos me trouxeram.
Não sou o padrão de beleza,
E agora, meu bom Deus (a)?
Não sou o padrão de beleza,
Graças a Deus (a)!
Demorei, foi custoso
Mas descobrir que o que existe mesmo é beleza imperfeita
Que não somos iguais
E que já chega dessa crueldade para com as nossas meninas
Hoje sou mulher
E tenho me desfeito pouco a pouco desses traumas
Impostos
Orquestrados
Fraudados
Por uma sociedade eurocêntrica e elitista
Cheia de traições
Redes
Grilhões.
Já não caibo em nenhum deles.
"Sou mais do que teu olho pode ver."

Aníssima, em letra e fotografia.

E em tempos de críticas à cultura do selfie, fico feliz em ver as moças pretas, gordas, pobres, albinas, lilases e etc. se empoderando. Aparecendo natural ou com photoshop, com ou sem filtros, mas aparecendo. Desabrochando a sua beleza (sempre haverá beleza) para uma câmera fotográfica...E por fim, concluo: mais que curtidas, que satisfaçam a si mesmas. Que orgulhem de si, que apareçam e desbanquem esse conceito de beleza ultrapassado, impositivo e muitas vezes impossível para nossas estruturas anatômicas, étnicas, de raça, de gênero e mesmo psicológicas.
Irradiem luz a si mesmas através de seus olhos. Que não tenhamos curtidas, que não levemos pelas vias da competição...Que sejamos o que quisermos. Mas que sejamos sui generis.
Chamar mulheres que sempre viveram na sombra de uma autoestima em baixa de narcisistas, exibicionistas e loucas porque tiram fotos de si mesmas contrariando a indústria da beleza feita é cruel e maléfico. E pra deixar bem claro não estou me referindo aqui ao exagero das exposições nas redes sociais, ou ás doenças da era contemporânea relacionadas ao uso abusivo da internet. Me refiro ao preconceito, á ideia disseminada de que deve se acabar com a inclusão digital. O mundo é povoado de diversidade e óbvio que a internet reflete isso. Empoderem-se moças, desabrochem as suas belezas!!!!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Término Pós- moderno de um idílio amoroso

Escreva, Ana!

O olhar de Margot sobre a vida adulta