Margot e a tortura*

    
IMAGEM DO GOOGLE


Todo segundo semestre do ano a mãe de Margot inventava de levar a menina no salão de beleza. Era uma verdadeira tortura, até que Margot teve a sorte de sua mãe ter conhecido uma  cabeleireira  que começou a cortar o cabelo da menina em casa mesmo. Só que naquele mês, essa amiga de sua mãe havia viajado e Margot ia ter que ir ao salão de beleza do outro lado da cidade para cortar o cabelo. Por ela esperaria o retorno de sua cabeleireira particular, mas sua mãe em polvorosa, dizia que " Essa palha muito feia tem que ser cortada, parece desleixo!" e a menina tinha que acatar.
    Lá se  foi Margot com sua  mãe para o salão de beleza, lugar inclusive, onde sua mãe sentia-se muito a vontade. E lá estavam muitas mulheres. Umas bonitas, umas feias e umas mais ou menos. Mas Margot tinha uma certeza "São todas umas malucas", cochichava com a mãe. E a mãe lhe dizia "Um dia você vai me pedir de joelhos pra eu te trazer aqui, e seu pai não vai dar conta de tanta conta no salão!" e a menina fazia cara feia e desacreditava. E ficava ali, paralisada olhando todo aquele povo no desespero para fazer unha, cabelo, limpeza de pele, depilação, envolvidas em papéis, toucas, aventais que as deixavam parecidas com seres de outro planeta...Queriam ficar bonitas a todo o custo, queriam o cabelo da moda, a cor da moda, enfim o modismo atual. E Margot pensava no que sua mãe lhe disse " Será mesmo que ficarei louca a ponto de ficar assim? ". Margot até que tentava esconder, mas era vaidosa sim, apesar de não deixar que a vaidade ficasse acima da diversão e estripulia, mas odiava o ambiente. 
    E já estava mesmo achando tudo aquilo um verdadeiro tédio,  e já havia lido umas quatro revistas, até que começaram os burburinhos e as fofocas, todo mundo sabia da vida de todo mundo. Aí percebeu que até sua mãe começava a contar vantagem e mesmo mentir. " Eu e meu marido já estamos planejando nossa viagem para a região Sul, queremos ir justamente no tempo bem frio, por isso estamos adiando um pouco." Foi quando uma gorda cheia de bobes na cabeça gritou lá do fundo "Já tem uns dois anos que te conheço e você fica na mesma conversa, até hoje não foi ao Sul ". E a mãe de Margot ficou murchinha, murchinha. Então, ousadamente a menina seguiu em defesa da mãe " Ei gordona, se não viajamos ainda para o sul é porque papai está cheio de dívidas e está pagando tudo primeiro, viu? Mas um dia nós vamos, não é mãe? Deixe se ser invejosa, a senhora diz isso porque não tem marido que lhe leve ao sul, bem que mamãe disse que a senhora é amargurada!". A mãe de Margot foi  derretendo na cadeira e lançou aquela frase clichê " Crianças, escutam as coisas pela metade e saem reproduzindo." Depois lançou aquele olhar de "depois acertaremos nossas contas" para a filha. Já a  senhora ao ser chamada de gorda e amargurada, se reduziu a conversar apenas com a manicure e falar em quão malcriada e deseducada tinha sido Margot e a manicure sábia e tranquilamente só acenava com a cabeça, sorria e dizia "é só uma criança, criança não mente", e as outras pessoas começaram a disparar olhares de reprovação para a menina Margot e a mandar a mãe controlar os impulsos da filha, que era muito sem limites. " E olha que eu nem disse nada, eu hein", pensou a menina.
     Resolveu que ficaria quietinha, fecharia os olhos e rezaria pra sair logo dali, daquele meio de gente chata, falsa e que só dava importância para a aparência. Pessoas que aproveitavam um momento de aglomeração para se ocupar da vida alheia e esquecia da sua própria, pessoas que só queriam se aparecer. Ela sabia que não tinha falado nada de mais, não havia mentido, era o que importava e  prometeu que não iria nunca na vida pedir aos pais para ir ao salão de beleza, um lugar chato e superficial. O mundo era um lugar estranho! Ela preferia perder seu tempo correndo no parque, ou na casa de sua avó, ou mesmo, ler qualquer coisa, ou até mesmo deitar no chão frio e ficar olhando para o teto, menos estar ali. E mesmo, um lugar como aquele devia ser proibido de existir. "Parece mais um antro de tortura, daqueles dos castelos medievais", estava exagerando, mas esta era Margot, exagerada.
    No mundo encantado de Margot não existia salão de beleza. Quem quisesse arrumar o cabelo era só comprar uma varinha de condão e em dois toques tudo se resolveria. Margot sabia que se as pessoas do mundo real descobrissem o seu mundo, todo mundo ia querer se mudar pra lá, pois tudo era muito mais fácil e mais feliz.

Ana Paula Duarte. Queria ser um pouco Margot e queria morar em seu mundo encantado.


Ps: A foto acima expressa meu alto grau de seriedade e identificação com Margot...Eu quero ser um pouco Margot. Há pedidos, postei ela aqui...

Comentários

paula disse…
Senti o cheirinho da Margot e o perfume de menina e não é que ela estava de volta?!
Adorei a imagem, menininha bem espoleta essa bem a cara de Margot e a cara mesmo de seus textos.
Parabéns redundantemente amiga.
Bjos.
Ana Paula Duarte disse…
A foto infelizmente teve q ser retirada...
Que Margot venha sendo imaginada em nossas mentes, então, que sua imagem seja livre! Cada um tem a Margot que merece, que quiser.
Beijos a todos.
Qual de nós não carrega uma Margot dentro de si com horrores ,alguns inconfessáveis???

Gostei,mocinha linda!!

Um beijo carinhoso!

Sonia Regina.
Daniel Savio disse…
Engraçado que se preocupam tanto com a aparência externa e não se preocupam nada da aparência interna, de serem verdadeiros...

Fique com Deus, menina Ana Paula Duarte.
Um abraço.
Beleza de texto. Maravilha de experiência. É verdade, dona Ana Paula, cada um de nós tem sua própria imagem de Margot, de forma que Margot parece com, simplesmente, todas e todos nós. Um brinde à magia e aos cabelos descabelados mesmo. Bjão.
Braulio Pereira disse…
adorei Ana Paula


beijos flor!!
paula disse…
Margot como sempre deliciosa, e essa foto aí ...kkkkkkkkkkkkkk pra vc Ana Paula maluuca.
Quero mais de Margot!
Aline disse…
Interessante o conto e o melhor, a foto esta ilaria e combinante, pelo visto o Morro foi mesmo perfeito.

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