Outra moça

Imagem forte do filme Um cão andaluz, parceria entre Bunuel e Dalí, em que é cortado o olho de uma mulher.¹


Esperando na janela. Quem nunca avistou uma moça na janela, a suspirar e observar a vida como se esperasse alguma coisa?
Hoje em dia essa cena já não é tão comum. Por quê?
O que vimos hoje são muito mais namoradeiras (aquelas escultura, geralmente de moças negras em posição de espera nas janelas) decorando a frente de casas, hotéis, prédios comerciais e etc.
Talvez ela estejam ali de fato para decorar. Ou, para nos lembrar de um tempo em que as moças se debruçavam nas janelas, cheias de sonhos, aguardando por movimento em suas vidas. E geralmente, tal movimentação era iniciada por algum rapaz que apareceria para acabar com o sossego, baratinando as emoções e batucando nos corações.
O nosso querido Targino Godim atentou para a moça na janela quando escreveu a canção de sucesso interpretada pelo mestre Gilberto Gil, a saber, pelo seu título Esperando na janela².
Em sua letra fica nítida a certeza de que a moça estaria a esperar o seu pretendente na janela, já que ele iria falar de seu amor, pois a iniciativa culturalmente vinha do gênero masculino.
Hoje, algumas moças continuam a esperar. Talvez no computador e nas redes sociais, lugar para onde boa parte de nossa cultura foi transplantada e daí já podemos afirmar a ideia de que a cultura muda, ela sempre muda, em prol da evolução de nós, mamíferos pensantes.
Esperar sempre foi algo considerado, entre tantas coisas, como característica da essência feminina. Mas quem nos ditou isso?

Imagem do google

A moça deixou de esperar na janela. Já não há tempo!
A moça pintou-se e foi para a rua, espaço público. Estudar, trabalhar, passear.
A moça é quem não mais se segura, quer sair do controle. Do sentimento, do corpo, da mente. Se ela quer namorar ela diz, demonstra, vai atrás também, seja para namorar meninos ou meninas, meninas e meninos.
A moça enfrenta a insegurança. A rua escura na cidade fria. Que faz de seu corpo propriedade em meio a tantas vigílias e dominações.
Alguém lhe tapa a boca. Segura firme seu corpo, dá-lhe uma gravata. E a moça desfalece nos braços do algoz que lhe abusa de modo lancinante.
Alguém disse a moça, que ela não deveria ter entrado naquela rua escura. Que era melhor se tivesse ficado em casa, protegida.
Ah, moça, seria melhor se ficasse aí na janela esperando o amor, a banda, a rotina, a vida passar e você observando.
Dias depois, a moça levanta. Vai à rua, sozinha. Depois de dar queixa na delegacia, se junta a outra moças. Mãos dadas. Passeata, manifestação, libertação.
A moça vítima, é também protagonista. Ela não quer que outras moças acreditem que é melhor ficar em casa. Ela quer que se garanta que as moças possam sair às ruas sem medo de abuso, de cantadas e de objetificação. Quer desfrutar da cidade. Ela faz de sua dor o seu megafone.
Ao invés de esperar, a moça pulou a janela.

Ana Paula Duarte- um dia aprenderemos, mesmo que sem categorias que se encaixem, do caos surgirá uma nova ordem. Que nos desordenemos, subvertamos e vivamos mais o que queremos ser. Que as asas de Frida nasçam sobre nossas consciências, amém!


¹ Para saber sobre o filme (muito bom, por sinal), clica aqui.
² Para saber mais sobre a música clica aqui.

Comentários

acho que os homens tb esperam.

Postagens mais visitadas deste blog

Término Pós- moderno de um idílio amoroso

Escreva, Ana!

O olhar de Margot sobre a vida adulta