Pequena crônica sobre o silêncio

Um amigo me pediu, bem no meio daquele de surto de dor:
- Não grite, não gema, só chore!
Cumpri, por mais que teimosa fosse, o mandamento.
Então, um belo dia, eu vi, a vida trouxe numa bandeja de prata a cabeça de meu algoz. 
Ele gritava e gemia, as dores intrínsecas, todas as mazelas e o lamaçal de feno era fétido horror.
Tive pena, mas enfim, cumpre-se a justiça. Muito obrigada sábio amigo, agora passo tal lição:
-Silêncio! Não grite, não gema, nem soluce... Apenas chore.
Um dia, pediu um prato de comida para matar a fome, recebeu em sua face um escarro.
 Hoje, nem escarro naqueles ressecados lábios desidratados. Aquele olhar- enxurrada- altivo de ódio e destempero foi dando lugar a um olhar perdido e desesperado.
O que fazer com a cabeça na bandeja? Enterrá-la, ora!
 Pois o cheiro de formol já enjoava minhas narinas. Longe de mim ser déspota!
E no final, quem estava certo? 
 Sartre estava certo:
' O inferno é o outro'
E nada mais de humilhações e horrores. Sabe por quê? Porque a vida não é assim, tão cruel como se apregoa por aí... É só que a vida detesta coitadinhos, detesta aqueles que gostam de ordenar e maestrar sobre a vida e as atitudes dos outros. 
Vamos vivendo, afinal. E quem sabe, aprendendo. 'A vida é agora, aprende'- Já dizia o poeta morto.
E a roda da vida, ah, esta não vai parar nunca e a altivez é uma grande burrice.
Já o silêncio, ah, é uma solitude que nos amadurece, é uma grande universidade.

                                           Imagem do blog:http://peopleenvironment.wordpress.com/2011/02/08/silencio-incomoda/

#Maktub


Ana Paula Duarte

Comentários

Dayane Carneiro disse…
Foi p mim? Tava precisando ouvir coisas assim... ADOREI!
Anabel disse…
Tentarei não gritar, não gemer; só chorar... Não para receber uma cabeça na bandeja, mas sim, para aprender com o silêncio e sentir melhor a umidez de minhas lágrimas.

Amiga, prabéns!
Quezia Alvim disse…
é amiga...concordo totalmente c vc
só quem guarda a dor em silencio...sabe quanto ele vale e quanto serve como moeda d troca para com aqueles que colocam o dedo em nossa cara...
amo vc.
Já gritei, gemi, chorei mas aprendi muito com o silêncio...

beijooo.
Lorena disse…
Ana gostei muito de suas palavras, pois me vi em muitas delas.
É que ando cada vez mais apaixonada pelo Tempo. Não esse do tic-tac do relógio ou aquele das épocas estanques do calendário gregoriano, sabe? Eu falo é do tempo de cada um - que é, talvez, o mesmo tempo que se leva para florescer. Em nossas vidas, em algum momento, ele - o Tempo - nos lembra do compromisso que precisamos assumir com nós mesmos. O que fazer nesse período é uma escolha que cabe a cada um. Por isso gostei muito desse silêncio ao qual você se referiu, como sendo uma solitude. Fundamental para estudar, pesquisar, fazer um balanço da própria vida, ouvir os sonhos que ficaram presos na memória e no coração da gente... Bom para aprender a se amar e se cuidar...Tempo de renovação. Um beijo, querida.
Marcos Fellipe disse…
Ehhh Ana!!! Como já disse alguém: "O silencio é um amigo que nunca trai... Por algumas vezes tentei aprender essas disciplinas desenvolvidas por nossos irmãos orientais, mas não consegui, tentei aprender sobre o silencio... E aprendi muito sobre a importancia do silencio com os falastrões... Não conseguem ouvir nem mesmo sua própria voz... Não conseguem ouvir a si mesmos qto mais os outros... Quero ouvir os gemidos de Gaia... Quero ouvir as gargalhadas de Dionísio...
Belíssima crônica. Diante dela e de quase tudo que vem de você, moça inquieta e subversiva, como não silenciar? Você é fantástica. Saudades
Adri Ferreira disse…
Aaaaaahhh o silêncio!!!
Precioso como o ar!!!

bjoss
Seu texto gritou em minha alma...fez-me lembrar fatos que desejo esquecer...melhor o silêncio!!

Um beijo!

Sonia Regina

Postagens mais visitadas deste blog

Término Pós- moderno de um idílio amoroso

O olhar de Margot sobre a vida adulta

Escreva, Ana!